O colete preto

Já falei por aqui que não tenho tendências consumistas. Compro pouco, mas o que compro normalmente dura muito.

Desde quando eu li (ou assisti em algum programa de televisão), que se tivermos no armário alguma roupa que não usamos há mais de 1 ano é fato que não usaremos mais (tirando as roupas de festa) eu comecei um processo vagaroso de desapego.

No começo, eu escolhia algumas roupas de tempos em tempos, normalmente final de ano. A sensação era de alívio, mas sempre vinha o pensamento – e se eu quiser usar esta blusa/calça/sapato qualquer outro dia e tiver doado?

Tinha apego. E depois, raramente sentia falta de algo dado.

Eu fui gostando da brincadeira, principalmente depois que comecei a trabalhar de casa, pois estava o tempo todo vendo o que uso ou não. A situação se inverteu, comecei a doar até peças que ainda usava de vez em quando.

Embora eu considere ter o essencial, sempre fica algo guardado.

Hoje em dia não tem data, quando acordo com vontade de desapegar abro o armário e procuro o que não uso mais. Desta última vez cacei mesmo, pois a cada dia que passa está difícil encontrar o que se desfazer.

Nesta última experiência me deparei com uma peça que eu não uso, mas não tenho coragem de doar.

Um colete preto que usei muito pouco, mas que comprei numa das poucas vezes que minha mãe topou passear no shopping. Ela não gostava de sair muito de casa, pelo trabalho que ela achava que dava e acho eu porque as pessoas sempre olham as que estão vulneráveis (no caso dela – cadeira de rodas) como alguém muito coitado. E se tinha algo que ela não era é coitada.

Neste dia passamos a tarde todinha em lojas. Provava, ela via e dava sua opinião. Este colete ela amou. Ele e uma saia toda plissada que eu não gostava, mas comprei por ela. A saia, doei. O colete não.

Uma das últimas vezes que nos vimos – eu e mamãe – estava com ele. Ela me olhou e disse – ” – Filha você está tão linda, parece uma modelo!”

Nunca me esqueço. Estávamos no hospital, eu indo embora e ela ficaria por mais tempo, mal sabíamos que de lá ela não sairia mais.

Este apego emocional ainda fica comigo e talvez seja o mais difícil de desfazer. Aquele colete representa simbolicamente todo o cuidado que ela tinha por mim e todo o carinho que ela usava para fortalecer o meu amor-próprio. Ela sabia que eu tinha minhas questões e que eu não apostava todas as fichas em mim.

E que eu considerava muito o que ela dizia. E ainda considero.

Os apegos emocionais são como cicatrizes. Elas estão registradas em nossa alma e dificilmente partem, mas podemos treinar o desapego para aliviar: a alma e o armário!

Na próxima leva de doação quem sabe eu entregue o colete, só que desta vez escolherei com carinho para dar. Alguém que receba nele todo o amor que eu recebi por usá-lo.

E assim se dará esta corrente de amor que pode ser traduzida assim, num simples colete preto!

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